Carne bovina brasileira passa a pagar tarifa de 67% na China fora da cota
Brasil atingiu o limite de 1,106 milhão de toneladas para 2026, e volumes que excederem a cota passam a receber sobretaxa adicional de 55%.

A China passou a aplicar nesta quinta-feira (1º) uma tarifa adicional de 55% sobre a carne bovina brasileira que ultrapassar a cota estabelecida para 2026. O Brasil atingiu em 29 de setembro 100% do limite anual definido pelo governo chinês, de 1,106 milhão de toneladas. Como o produto dentro da cota está sujeito à tarifa regular de importação de 12%, os volumes excedentes passam a enfrentar uma alíquota total de 67%.
O Ministério do Comércio da China confirmou na quarta-feira (30) que a cota brasileira havia sido integralmente utilizada. Pelas regras da salvaguarda, a sobretaxa começa a valer no terceiro dia contado a partir do momento em que o limite é alcançado, o que estabeleceu a cobrança a partir da zero hora de 1º de outubro.
A restrição não foi criada exclusivamente para o Brasil. A China adotou no fim de 2025 uma medida de salvaguarda para as importações de carne bovina, com quantidades específicas para diferentes países e aplicação de tarifa adicional de 55% quando os respectivos limites são ultrapassados. A política foi estabelecida após uma investigação iniciada pelo governo chinês em dezembro de 2024.
Para o setor brasileiro, a mudança tem impacto especialmente relevante porque a China é o principal destino da carne bovina do país. Ao comentar a criação da salvaguarda, a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) e a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) afirmaram que o novo sistema exige uma reorganização dos fluxos de produção e exportação. Segundo as entidades, em 2025 as compras chinesas de carne bovina brasileira chegaram a cerca de 1,7 milhão de toneladas.
A aproximação do limite já vinha provocando uma desaceleração das vendas. Em agosto, as exportações brasileiras de carne bovina recuaram 27,1% em volume na comparação com o mesmo mês de 2025, movimento relacionado principalmente à redução dos embarques diante do risco de incidência da sobretaxa chinesa, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.
Com a restrição, frigoríficos também passaram a ajustar a produção e buscar outros destinos para parte das vendas. A Abiec defende ainda mudanças na administração da cota para evitar que o volume disponível seja consumido rapidamente nos primeiros meses do ano. Entre as propostas discutidas está uma distribuição entre empresas exportadoras baseada no histórico de vendas de cada frigorífico.
A pressão sobre o setor deve continuar em 2027. A cota destinada ao Brasil aumentará para 1,128 milhão de toneladas, apenas 22 mil toneladas acima do limite de 2026. Como as empresas já conhecem antecipadamente o volume disponível, embarques destinados ao próximo período podem começar ainda em novembro deste ano, para que as cargas cheguem aos portos chineses a partir de janeiro.
Segundo o presidente da Abiec, Roberto Perosa, dependendo do ritmo das compras chinesas e da forma como os embarques forem administrados, a cota de 2027 poderá ser totalmente utilizada entre março e abril. A projeção aumenta a preocupação do setor com um novo período prolongado de exportações sujeitas à tarifa adicional ao longo do próximo ano.



